ONEVOICE27 - MISSÃO PARA TODOS
Em entrevista ao UNASP, a doutora Lisa Beardsley-Hardy explica o que é o OneVoice27, porque as universidades são peça-chave do movimento e qual é o papel de cada educador.
Texto: Sâmela Lima
Entrevista concedida a Sâmela Lima nos estúdios da Faculdade Adventista de Comunicação e Inovação (FACI) do UNASP, em 14 de agosto de 2026. As falas foram traduzidas do inglês e levemente editadas para leitura, preservando o sentido original.

O OneVoice27 é o movimento missionário global da Igreja Adventista do Sétimo Dia para o período que vai de setembro de 2026 a setembro de 2027. A proposta é simples de enunciar e ambiciosa de executar: durante um ano, a Igreja inteira, em todos os continentes, em todas as instituições, em todas as áreas do conhecimento, se organiza em torno de uma única mensagem, “Jesus faz tudo novo”, dita por muitas vozes ao mesmo tempo. O nome vem daí: não é uma voz falando para o mundo todo, são milhares de vozes falando a mesma coisa. Nenhuma ferramenta deve estar fora do alcance da missão: usaremos todas as tecnologias necessárias para que a mensagem chegue onde as pessoas já estão.
Para entender de onde vem esse movimento e o papel das instituições de ensino nesse grande movimento, o UNASP conversou com a doutora Lisa Beardsley-Hardy, diretora mundial de educação da Igreja Adventista do Sétimo Dia.
De uma voz para muitas vozes
Antes de falar sobre o presente, a doutora Lisa faz questão de dar uma aula de história. Em 1995, a Igreja lançou uma nova abordagem de evangelismo usando a tecnologia de ponta da época: o Net 95, uma alusão a lançar redes e ser pescadores de homens, só que “usando redes de transmissão satelitais”. A primeira transmissão saiu de Chattanooga, no Tennessee, com Mark Finley como orador e o pastor Charles D. Brooks respondendo às perguntas bíblicas enviadas pelo público. O salto veio três anos depois, em 1998, no campus da Universidade Andrews, com o pastor Dwight Nelson no púlpito e dois seminaristas como âncoras, e ela estava lá. “Foi o maior evangelismo por satélite já feito na história”, lembra. “Eram 7.600 pontos de transmissão em 100 países, com tradução simultânea em 38 idiomas. Eu tinha acabado de começar a trabalhar em Andrews, então tive o privilégio de estar na plateia todas as noites. O ambiente era energizado – parecia brasileiro em jogo de futebol.”
A memória, porém, não é contada por nostalgia. Ela serve para marcar um contraste. “Naquela época, o modelo era um orador e múltiplos pontos de transmissão”, explica. A igreja local não estava ausente, muitos desses pontos ficavam justamente em igrejas, que convidavam vizinhos e conhecidos, mas o papel de todos era essencialmente o mesmo: “todo mundo sentava na igreja olhando para uma tela, com uma única pessoa fazendo todo o trabalho”. É exatamente esse arranjo que agora se desfaz. “O OneVoice27 vira esse modelo de cabeça para baixo”, resume a doutora Lisa. “Agora, em vez de um orador e muitos pontos de transmissão, são muitos oradores ao redor do mundo, e as universidades têm um papel-chave nisso. Mas a chave é falar com uma só voz.”
O diferencial da Universidade para o OneVoice27
Quando a conversa passa do histórico para o operacional, sobre o se espera, afinal, de uma instituição como o UNASP, a primeira resposta é uma delimitação, e ela costuma tranquilizar administradores: “A liderança mundial da Igreja Adventista não está dizendo: vocês têm que fazer isso, ou aquilo, ou aquilo outro. Existe verdadeiramente uma abertura para a direção do Espírito Santo.” O movimento oferece um eixo comum, não um roteiro fechado.
O que a Igreja identifica nas suas universidades é uma vantagem que nenhuma outra instituição do sistema possui. “Nossas universidades têm algo que nenhuma outra instituição da Igreja tem. É um recurso natural maravilhoso: estudantes – estudantes que são nativos digitais”, diz ela. “Eles já têm o aparelho, e mesmo se não têm, sabem usá-lo.” A partir daí, o papel do sistema educacional se desdobra em duas frentes bastante concretas.
A primeira é garantir fundamento. Para a doutora Lisa, o trabalho de professores e administradores universitários consiste em “ajudar a ensiná-los a usar os dispositivos digitais que já possuem, e a garantir que aquilo que criam como criadores de conteúdo seja biblicamente fundamentado e teologicamente sólido”. Isso não significa formar uma geração de imitadores. “Isso não significa que eles vão fazer o que Mark Finley fez no Net 95. Provavelmente não vão replicar aquilo, vão encontrar um jeito novo e criativo. Mas precisam garantir esse fundamento”, destaca.
A segunda frente é garantir acesso e domínio técnico, e aqui ela olha ao redor, para o estúdio onde a entrevista acontece. “É verdade que eles têm o celular, mas lugares como o UNASP podem montar estúdios digitais. Nós estamos em um dos estúdios de vocês agora: a acústica é ótima, a iluminação é ótima.” O que ela vê como oportunidade é transformar essa infraestrutura em formação: “Podemos ajudar os estudantes a aprender a usar isso, a montar pequenos estúdios, diferentes fundos, chroma key, e a fazer edição básica, para que possam usar o que produzem para compartilhar a mensagem com outros.”
Perguntada sobre iniciativas já em andamento na rede mundial que poderiam servir de inspiração para as demais, a resposta foi direta e devolvida ao anfitrião: “Se eu fosse destacar um lugar, seria este lugar. Vocês estão fazendo um trabalho realmente de ponta.” A razão, segundo ela, está na combinação rara de competências reunidas no mesmo campus – “um departamento de comunicação muito forte, professores que entendem os princípios da comunicação e um departamento de teologia robusto para ajudar os estudantes a garantir o fundamento bíblico” e é isso que a deixa curiosa para acompanhar “como o OneVoice27 crescerá e amadurecerá aqui”.
Onde o OneVoice27 se encaixa: o “I Will Go”
Um ponto que a doutora Lisa faz questão de esclarecer é que o movimento não nasce de forma isolada. Ele se encaixa no plano estratégico global da Igreja, o “Eu Irei” (I Will Go), estruturado em quatro partes: comunhão com Deus, identidade em Cristo, unidade no Espírito Santo e missão para todos. “O OneVoice27 está em missão para todos”, situa. E “missão para todos” é para ser lido literalmente: “Todo mundo pode fazer alguma coisa, seja usando o celular, seja conversando por telefone com alguém, seja simplesmente compartilhando pessoalmente algo sobre Cristo com alguém que tem uma necessidade específica.”
Há, embutida nessas quatro partes, uma sequência pedagógica que ela descreve como o roteiro dos primeiros meses. “Muitos campi vão começar pela primeira parte, comunhão com Deus. Vão passar os primeiros meses, talvez até o Natal, em comunhão com Deus – usando o livro O Desejado de Todas as Nações, para que as pessoas compreendam quem Jesus foi.” Só então vem a etapa seguinte, quando os estudantes já “aprenderam os hábitos de ler a Bíblia, de orar, de entender o plano de Deus para a vida deles” e podem encontrar sua identidade em Cristo. E depois disso, diz ela, chega “a parte energizante, que é o batismo do Espírito Santo”, a etapa que, na sua leitura, sustenta todas as outras: “podemos ter habilidades técnicas, podemos ter percepção teológica, mas é o Espírito Santo quem vai capacitar este trabalho”.
Para a área da Educação especificamente, a liderança mundial da Igreja fez uma escolha deliberada de foco. “Para o quarto elemento, missão para todos, na Educação nós selecionamos um único objetivo, entre todos os objetivos do plano estratégico”, conta a doutora Lisa. “Com todos os diretores de Educação, escolhemos apenas um: missão realizada por jovens, para jovens. Esse é o nosso único objetivo.” O plano completo, com os quatro elementos e os objetivos específicos da Educação em todo o mundo, está disponível na internet sob o nome I Will Go.
“E se eu não sou da Comunicação nem da Teologia?”
Esta é, provavelmente, a pergunta mais frequente: como envolver professores e alunos das Engenharias, da Saúde, da Educação e tanta outras áreas presentes no UNASP em um movimento que, à primeira vista, parece território de comunicadores e teólogos. E como isso se distingue, ou não, da Integração Fé, Ensino e Aprendizagem que as instituições já praticam. A resposta é a parte mais prática da entrevista, e começa por uma liberdade: “É aberto ao modo como o professor quiser adaptar.”
O exemplo que ela oferece vem da sede da Igreja Adventista na África Centro-Ocidental, onde O Desejado de Todas as Nações foi rebatizado de “O Herói Humilde” e ganhou versões condensadas para o ensino fundamental e médio, acompanhadas de cadernos de atividades, adaptação necessária num contexto em que boa parte dos estudantes das escolas adventistas não é cristã. A mesma lógica, sugere ela, vale para cada área do conhecimento: o material é o mesmo, a tradução é local.
A recomendação metodológica que faz aos gestores é clara e, significativamente, não exige criar nada do zero. “Toda escola, todo campus deveria ter algo chamado plano diretor espiritual, que identifica metas e objetivos de crescimento espiritual entre os estudantes”, observa. “Como o OneVoice27 se encaixa nisso é decisão de cada campus. A primeira coisa que eu faria é pedir o plano diretor espiritual da escola ou da universidade para identificar como incorporá-lo naquilo que já se faz.” O exemplo mais imediato é a Semana de Oração, presente em todos os campi da rede e naturalmente alinhada ao eixo “comunhão com Deus”.
E então vem a frase que talvez seja a mais importante do ponto de vista de gestão acadêmica, e que responde de antemão à objeção de quem já tem a agenda cheia: “Isto não é para acrescentar mais trabalho sobre o que vocês já fazem. É para encontrar uma forma, talvez duas, de integrar aquilo que vocês já fazem, de modo que possam ser parte da iniciativa global.”
Jovens não são mão de obra – são ministério
Há um risco evidente em um movimento que depende de produção digital em escala: enxergar os jovens apenas como força de trabalho técnica, e não como pessoas que têm um ministério e algo próprio a dizer. A doutora Lisa reconhece o risco de imediato: “Sim, eles são criadores de conteúdo – mas não são simplesmente um exército de operários. E é por isso que a transformação precisa vir primeiro.”
Para explicar por que a competência técnica, sozinha, é insuficiente e até perigosa, ela recorre a um caso que havia lido na véspera: um jovem, nos Estados Unidos, que ganha a vida produzindo “vídeos de indignação” com inteligência artificial. Ele gerou por IA a imagem de um menino em situação escolar constrangedora, fabricou uma troca de mensagens falsa entre a direção da escola e a mãe da criança e publicou tudo como se fosse real. “A publicação viralizou. As pessoas ficaram indignadas dos dois lados, a favor e contra – e a coisa toda era fabricada”, relata. “Mas ele é pago para fazer isso, e é pago tão bem que largou o emprego regular.”
A leitura que ela faz do episódio é o argumento central do movimento em matéria de formação. “Isso demonstra que não basta criar conteúdo: é preciso fazê-lo pelas razões certas e de forma ética. Por isso eu disse que começa pela transformação. Você pode ser um gênio técnico e usar isso para propósitos errados.”
Daí a formulação que resume toda a proposta educacional do OneVoice27, e que ela repete como um lema: “Antes de fazer, você precisa ser. Você precisa ser aquela pessoa que tem comunhão com Deus, cuja identidade está fundamentada em Cristo, que é capacitada pelo Espírito Santo. Aí o conteúdo será congruente com aquilo que queremos alcançar. Ser antes de fazer.”
O que fica depois de setembro de 2027
Movimentos com data para terminar correm o risco de não deixar nada atrás de si. Perguntada sobre o que deve permanecer quando o ciclo se encerrar, a doutora Lisa responde no vocabulário da educação, não no do evento: “O que esperamos deixar é a mesma coisa que esperamos deixar quando fazemos qualquer tipo de educação: desenvolver capacidade nos nossos estudantes, para que tenham uma visão maior.” E essa visão maior tem um conteúdo específico – a passagem de espectador a participante: “que entendam que não vão apenas esperar passivamente que Mark Finley pregue, eles agora podem ser parte dessa pregação, sejam enfermeiros ou engenheiros, dentro do seu próprio contexto”.
Sobre o horizonte de apenas um ano, ela responde com bom humor: “Isto dura só um ano. Mas nós não vamos parar de orar e pregar depois do ano que vem.”
“Jesus faz tudo novo”
Doutora Lisa explica a dinâmica comunicacional do projeto, “a primeira coisa que eu diria é que ‘OneVoice27’ é conversa interna. É como falamos entre nós. Não é isso que dizemos quando falamos para fora.” O nome, explica, apenas nomeia o arranjo: “só enfatiza que estamos todos falando juntos, muitas pessoas fazendo, mas ainda assim com uma só voz, diferente do Net 95, em que era literalmente uma única voz dizendo uma única coisa”.
Para fora, portanto, o que se comunica não é a marca, e sim a mensagem. “E a mensagem é que Jesus faz todas as coisas novas”, para quem está triste, para quem está de luto, para quem está doente. Ele fará novas todas as coisas. E acrescenta a tarefa que cabe a cada área do conhecimento: “precisamos encontrar formas diferentes de dizer isso a partir das nossas diferentes áreas: da enfermagem, da medicina, da teologia”.
O convite final é dirigido a todos, e vem sem exigências. “O que eu diria aos nossos professores e estudantes é: reflitam, orem para que o Espírito Santo os guie sobre como podem fazer parte disso. Vocês não precisam virar a vida de cabeça para baixo, vocês já têm responsabilidades muito específicas.” O caminho, sugere, costuma estar mais perto do que se imagina: “haverá alguma forma de participar significativamente: orientando estudantes, sendo mentores, e mesmo na própria vida, enfatizando que Ele faz novas todas as coisas”. E encerra a entrevista como quem devolve a decisão a quem ouve: “Orem sobre isso. O Espírito Santo os guiará. Que Deus os abençoe.”
Cinco pontos para entender o OneVoice27 no UNASP
1. O modelo mudou. Não é uma transmissão com um pregador; são muitas vozes, de muitos lugares, dizendo a mesma mensagem.
2. A universidade entra com o que só ela tem: estudantes nativos digitais, uma estrutura que domina os princípios de comunicação, departamento de teologia que garante fundamento e professores e mentores que apoiam seus alunos.
3. Não é um projeto novo sobre a mesa. É integrar e potencializar o que já existe: Semana de Oração, plano diretor espiritual, projetos de curso, Integração Fé, Ensino, Aprendizagem a um eixo comum.
4. Ser antes de fazer. Competência técnica sem formação ética e espiritual produz conteúdo eficiente e errado.
5. A mensagem para fora é uma só: Jesus faz tudo novo. Cada área, saúde, engenharia, educação, negócios, traduz isso na sua própria linguagem.
Lançamento oficial: 5 de setembro. Culminância: setembro de 2027.
Mais informações e recursos: adventistas.org
