UNASP participa de descoberta arqueológica que contribui para estudos sobre a origem do alfabeto
Inscrição encontrada em Tel Lachish antecipa em cerca de um século registros conhecidos da escrita cananéia padronizada.
Texto: Victor Bernardo
Com participação de pesquisadores do UNASP, uma descoberta arqueológica realizada em Israel contribui para os estudos sobre a origem do alfabeto. Durante a sétima temporada de escavações em Tel Lachish, no fim de 2025, arqueólogos encontraram uma inscrição cananeia datada do século XII a.C. que pode alterar o entendimento acadêmico sobre a formação dos primeiros alfabetos semíticos.
A pesquisa foi conduzida em parceria com a Hebrew University of Jerusalem e a Seoul Jangsin University e teve os resultados publicados no artigo científico A Late Bronze Age Canaanite Jar Inscription from the 2025 Excavation Season at Lachish, no periódico Jerusalem Journal of Archaeology.

O fragmento foi encontrado na Área FF do sítio arqueológico de Lachish, em um contexto associado ao último assentamento da Idade do Bronze na região, destruído em meados do século XII a.C. A inscrição, escrita com pigmento avermelhado sobre um jarro cerâmico, preserva parcialmente o nome “Bʻlšlṭ”, interpretado pelos pesquisadores como “Baal governa” ou “Baal é governante”.
O historiador do Museu de Arqueologia Bíblica do UNASP, Sergio Micael, valoriza a experiência de escavar em Tel Lachish, um dos locais mais emblemáticos da arqueologia.
“Poder contribuir com novas descobertas torna tudo ainda mais especial. Nesta temporada, estive escavando justamente na quadrícula FF, onde a cerâmica foi encontrada, o que tornou a experiência ainda mais fascinante”, celebra.
Descoberta antecipa registros conhecidos
Segundo os pesquisadores, a inscrição representa um estágio avançado da escrita cananeia linear padronizada – sistema que posteriormente deu origem aos alfabetos hebraico, fenício e aramaico.
A principal relevância do achado está na cronologia. Até então, os exemplos mais antigos desse estágio de desenvolvimento da escrita eram datados do século XI a.C. A descoberta em Lachish, porém, antecipa esse processo em aproximadamente um século.
O estudo também desafia interpretações tradicionais sobre a origem dessa padronização alfabética. Durante décadas, muitos especialistas atribuíram esse desenvolvimento exclusivamente à região da Fenícia. A nova inscrição sugere que esse processo já ocorria no sul de Canaã durante a Idade do Bronze.
Outro aspecto destacado pelos pesquisadores é a qualidade técnica da escrita. A análise paleográfica identificou variações na espessura dos traços e sinais de que o escriba utilizava estilete e tinta com domínio avançado da técnica, indicando a existência de uma tradição escribal mais sofisticada do que se imaginava para o período.
Além disso, a pesquisa reacende discussões linguísticas sobre a raiz semítica “šlṭ”, relacionada à ideia de domínio e governo. O termo era frequentemente considerado um empréstimo tardio do aramaico, difundido apenas no período persa. A inscrição encontrada em Lachish demonstra, porém, que a palavra já estava em uso séculos antes, ainda na Idade do Bronze.

Participação do UNASP
Sergio reforça a importância da participação do UNASP na pesquisa, uma vez que o museu tem um papel de apresentar o conhecimento ao público, mas também de produzir ciência.
“Neste ano, estamos planejando retornar ao sítio arqueológico para dar continuidade ao trabalho e às pesquisas. Atualmente, a equipe do UNASP é a única universidade brasileira escavando periodicamente em Israel”, valoriza o historiador.
A participação do UNASP na expedição integra uma série de projetos internacionais desenvolvidos pela instituição por meio do Museu de Arqueologia Bíblica. O sítio de Lachish é considerado um dos mais importantes do Oriente Próximo para o estudo das origens da escrita alfabética e já revelou algumas das inscrições cananeias mais antigas conhecidas pela arqueologia.